sexta-feira, 18 de setembro de 2015

CRIANÇA PRECISA DE PSICOTERAPIA?

Como psicoterapeuta, percebo que é cada vez maior o número de pais que solicitam atendimento psicológico a seus filhos, inclusive para os muito pequenos (com idade entre 3 e 4 anos). Tais solicitações, invariavelmente, me fazem questionar e avaliar a real necessidade e demanda daquele que me procura. Será que estas crianças realmente precisam de psicoterapia? O que leva esses pais a me procurarem? 
Observo que a busca pela psicoterapia infantil, originada por conta própria, por encaminhamento de outros profissionais ou pessoas próximas, quase sempre é um pedido de ajuda para a criança. Solicitações iniciais e diretas para orientação de pais ou da família são raras, uma vez que prevalece a ideia de que quando a criança apresenta um sintoma ou sofre é ela quem deve ser cuidada. Aqui, enfaticamente, digo: nem sempre! As manifestações apresentadas pelas crianças podem apenas estar encobrindo outras que precisam ser reveladas.
Muito dos sintomas manifestos pela criança relaciona-se a questões de ordem social e/ou familiar. Situações de desavenças, discussões, competições, rejeições, entre outras, vividas direta ou indiretamente em seu ambiente, acarretam na criança sentimentos e comportamentos julgados como inadequados. Nestes casos, a criança  está como porta-voz de um sintoma mais amplo, e não como aquela que origina a situação. Somente uma avaliação minuciosa da história individual e familiar da criança permite avaliar a origem do sintoma e, assim, saber a quem deve recair o olhar terapêutico.
Minha experiência mostra que há ocasiões em que a orientação e o suporte oferecido aos pais (quando necessário à escola e a outros adultos responsáveis pela educação da criança), fazem com que não haja necessidade da criança se apresentar a mim como terapeuta infantil. Juntos, conseguimos oferecer a ela apoio suficiente para que entenda, elabore e supere suas dificuldades. Isso é muito importante, e de total implicação dos envolvidos nos cuidados com os pequenos.
Então, fica a pergunta: quando a psicoterapia infantil é realmente necessária?
Toda criança tem preocupações e desconfortos que se mostram através de irritabilidade, tristeza, choro, birras, brigas, isolamento, dentre outros. Um tanto disso faz parte da natureza humana e se resolve com a intervenção de uma pessoa próxima capaz de nomear e ajudar a criança a entender e a lidar com o que ela vivencia.
Quando é difícil para o adulto fazer esta ponte, a orientação de pais pode ser uma alternativa. No entanto, quando o sofrimento da criança é muito grande, apenas a intervenção de seus cuidadores pode não ser suficiente para ela compreender o que está vivenciando. Isso é bastante comum nos casos em que as crianças estão fortemente impactadas por fatores diretamente ligados a ela, como separações, perdas, mudanças, doenças, etc. Nessas situações, a psicoterapia infantil é recomendada para que o terapeuta, junto com a criança, possa ir construindo o sentido de tal sofrimento.
Além disso, crianças vão à terapia quando apresentam dificuldades recorrentes relacionadas a seu desenvolvimento (principalmente afetivo-cognitivo) que podem interferir na formação de sua personalidade. Por exemplo, crianças muito introspectivas e inseguras, que têm dificuldade em sair do lado dos pais, ou crianças que apresentam medos intensos, que atrapalham seu crescimento,  a formação da autoestima e prejudica seus relacionamentos sociais – ficam distantes, não brincam e não exploram os ambientes e pessoas.
O terapeuta é um profissional capacitado a ajudar a criança e os pais/responsáveis a (re)conhecer suas dificuldades, conflitos, sentimentos, direcionando-os. Assim, desfaço aqui a ideia de que terapia “conserta” o que não está dando certo com passes de mágica. O trabalho, para que tenha sucesso, é feito em parceria.  Aliás, a família é fundamental para a construção de um diagnóstico e prognóstico em conjunto.
Fonte: Veronica E. de Carvalho

Postado por: Ana Cláudia Foelkel Simões
Psicóloga Clínica - (11) 97273-3448

terça-feira, 8 de setembro de 2015

ADOÇÃO

A adoção segundo a idade das crianças
As conversas com seu filho deverão ser adequadas à sua etapa de desenvolvimento, temperamento e influências externas. Os filhos adotados durante sua infância experimentam a dor da separação de seus pais biológicos. Todas as crianças adotadas devem ajustar-se às novas imagens, novos sons, novos odores e novas experiências. Durante as primeiras etapas de comunicação, os pais têm uma perfeita oportunidade de começar a compartilhar com a criança o tema da adoção de uma forma tranquila e cômoda, para construir assim os cimentos de futuros diálogos.


Quando seu filho adotado é pequeno
- Utilize com frequência a palavra adoção. Isso lhes dará a oportunidade de acostumar-se a dizer a palavra sem sentir-se incômodos ou pouco à vontade.
- Utilizem a palavra adoção em um momento em que estejam próximos ao seu filho.
- Utilizem a palavra adoção de forma espontânea. Não a digam com muita frequência, só quando pareça natural fazê-lo.
Seu filho, evidentemente, não compreenderá esses assuntos completamente, mas começará a familiarizar-se com o termo adoção e com os tons como é empregado pra referir-se ao tema. É nessa etapa infantil quando se deve preparar para uma comunicação aberta sobre adoção, o que dará bons frutos mais adiante. Sejam sinceros consigo mesmos de modo que possam ser sinceros com seus filhos. São uma família adotiva e não podem mudar isso. Seus filhos têm direito de saber, quando for possível, sobre seus antecedentes e de sua adoção. Se tentam ocultar-lhes isso, eles se sentirão enganados e traídos até que a longo prazo descubram seus segredos (e o farão). À medida que seus pequenos mostram mais curiosidade a respeito da vida e do nascimento, estarão mais interessados em que papel atuam eles no esquema da existência.

Filhos adotados de um a três anos de idade
De 1 a 3 anos, as crianças estão muito ocupadas ganhando controle deles mesmos e do mundo. Fisicamente, o controle real começa durante essa etapa, controle de esfincteres, de caminhar, de alimentar-se, de seus pais através do “não”, etc.
Por volta dos 3 anos, a criança começa a aprender acerca da família e a concentrar seus interesses em como e quando nasceu. Antes que seus filhos possam entender o processo da adoção e as diferentes formas em que pode estar constituída a família, é necessário que compreendam as formas pelas quais se pode ter um filho.
É por volta dessa idade, quando começam a perguntar se cresceram na barriguinha da mamãe, portanto, que é o momento oportuno para explicar-lhes o processo de adoção e as diferentes formas que uma criança pode ingressar numa família.

Quando seu filho perguntar sobre o nascimento e a adoção
- Prepare-se para ser interrogado.
- Considere isso como uma oportunidade.
- Responda somente o que lhe perguntam, não entre em detalhes.
Essas perguntas são características das que fazem todas as crianças, e seus filhos não serão exceção:
- Como saiu o bebê?
- Eu nasci dessa maneira?
- Eu estive na sua barriga, mamãe?
- Por que eu não cresci na sua barriga?
Explique a seu filho que os bebês saem por uma abertura especial que têm todas as mulheres, e que todos nascemos dessa maneira. Que ele não cresceu em sua barriga, mas cresceu na de outra senhora e quando nasceu, você o adotou. Faça-o saber quão felizes estão pelo seu nascimento e que ele faz parte de toda a família.
Quando seu filho perguntar porque não cresceu em sua barriga, pode responder-lhe que tentou, mas não foi possível. E ele teve que vir de outra barriga. Se desejar, acrescente que você queria ter um filho, de modo que ele cresceu na barriga de outra senhora, e quando nasceu, você foi buscá-lo e o adotou.
Não trate de dizer a seu filho mais do que ele pode entender. À medida que cresçam, as informações também crescerão e serão mais adequadas para eles, segundo a idade que tenham. É importante contar-lhe, não somente de sua história depois de ingressar na família, mas também sobre suas origens e seus progenitores. Este conceito de uma história de vida global resulta num ponto crucial para desenvolvimento de sua identidade, e deve incluir tudo o que sabe a respeito do dia em que nasceu. A criança necessita saber que seu nascimento foi igual ao de todas as outras crianças, que forma parte de uma família, e que as famílias estão compostas por pessoas que vivem juntas e se amam umas às outras.

Filhos adotados de três a cinco anos de idade
De 3 a 5 anos, a criança estará se alistando para a próxima etapa: enfrentar o mundo. Começa a desenvolver a habilidade de explorar, de iniciar projetos e questionar tudo o que vê. Todas essas habilidades as ajudam a trabalhar a separação de seus pais, a preparar-se para sair do mundo seguro da casa ao selvagem e desconhecido. E no momento que der conta do mundo exterior, vai começar a confrontar o ato da sua própria adoção. Como sua habilidade de pensamento é tão rudimentar, geralmente a criança pequena tem problemas para entender as implicações de ser adotado.

Filhos adotados de seis a sete anos de idade
Na faixa dos 6 aos 7 anos, a criança pode diferenciar entre adoção e nascimento como modos alternativos de formar uma família. Em outras palavras, reconhece que, ainda que todos entrem no mundo da mesma maneira, pelo nascimento, a maioria dos membros da família o fazem nascendo dentro dela. Também reconhece que ser adotado significa ter dois pais distintos (“os que me conceberam e os que me acolheram e educaram”).
As crianças começam a perguntar sobre sua mãe biológica; as perguntas sobre seus pais biológicos podem vir um pouco mais tarde. Este é um bom momento para mostrar-lhes fotografias, cartas ou recordações de seus pais biológicos. Se não sabem as respostas às suas perguntas, ou se a história envolve um passado complexo ou penoso, responda com “talvez” evasivos, reafirmando o valor das pessoas envolvidas e a dificuldade de sua situação, enquanto reafirma o valor das pessoas envolvidas e a dificuldade de sua situação antes de “encontrar” seu filho.
Permita que pense sobre o tema, inclusive que fantasie sobre seus pais biológicos, induzindo seu filho a aceitar seu papel na família e a desenvolver um grau positivo de autoestima. Suas curiosidades podem derivar de temores sobre temas como que seus pais biológicos apareçam para reclamá-lo, por exemplo; por isso é tão importante que comprove que ele compreenda bem o processo e a razão de sua adoção.
O silêncio e a evasão possivelmente farão com que a criança pense que há algo errado em suas origens e consequentemente, que há algo mal nele. A alternativa é dizer-lhe a verdade do que passou; isto pode ser muito duro tanto para os pais como para o filho, já que no fundo existe uma verdade difícil de aceitar. Mas é mais danoso não dizê-lo, já que a criança percebe mistério, inquietude e silêncio sobre o tema sobre seus pais biológicos e de sua origem.
Esta distinção entre nascimento e adoção é muito importante, é a base de um significado e entendimento mais profundo. As crianças em idade escolar aumentam sua capacidade para solução de problemas. O desenvolvimento do pensamento lógico, aumento de sensibilidade ao ponto de vista dos outros, e experiência na sala de aula, contribui para este processo. A criança adotiva em idade escolar, pela primeira vez faz um esforço espontâneo para considerar seriamente as circunstâncias que rodeiam seu nascimento.
Por mais que os pais adotivos tentem, será difícil evitar que seus filhos tenham sentimentos de perda e aflição que inevitavelmente irão sentir. No entanto, poderão ajudá-los a superarem estas situações difíceis, entendendo seus sentimentos. Naqueles casos em que seu filho requeira alguma informação que não esteja em seu poder, ofereça-lhe ajuda para encontrá-la.
Um entendimento precoce que emerge sobre a família complica seus sentimentos sobre ser adotivo. Crianças pequenas, geralmente menores de 7 anos, definem a família primariamente em termos geográficos: sua família está composta pelas pessoas que vivem em casa. Não vêem a conexão biológica como necessária para ser membro familiar. Isto significa que as crianças pequenas aceitam facilmente a afirmação de seus pais adotivos, que são parte da mesma família e assim vai ser para sempre. 

Filhos adotados de sete a oito anos de idade
Perto dos 7 ou 8 anos, a criança começa a reconhecer que a família normalmente se define em termos de relações consanguíneas. Sendo assim, não tem vinculação biológica com seus pais adotivos, mas sim com seus pais biológicos (e possivelmente irmãos biológicos), em alguma parte, e aqui algumas crianças podem começar a expressar confusão sobre seu lugar como membro da família...
Além disso, este período se caracteriza pelo desenvolvimento da lógica recíproca. Com respeito à adoção, o desenvolvimento da lógica recíproca ajuda a sensibilizar a criança no assunto do abandono. Para as crianças jovens, os pais adotivos falam sobre a adoção enfatizando seu desejo de ter um filho e construir uma família. A criança, à medida que a história avança, necessita de um lar, e os pais adotivos os escolheram para ser parte da nova família. O que usualmente não se discute é porque a criança precisava de um lar.  Uma vez que a criança entra num período de pensamento lógico, percebe-se que para haver sido escolhida, primeiro teve que saber que veio de algum lugar, o que significa que foi abandonada. Durante esse tempo, a criança começa a entender a adoção não só em termos de construção familiar, mas também em termos de perda familiar.

Filhos adotados de nove a doze anos de idade
Entre 9 e 12 anos, as crianças têm uma compreensão mais profunda do que significa o processo adotivo. Talvez aflore nesta época os primeiros sinais prematuros de tristeza ou peso, à medida que as crianças comecem a resolver problemas, estabelecer prioridades e buscar relações. É também nestes momentos que começam a ver o lado público da adoção e a compreender que, socialmente, são diferentes de seus amigos, ainda que não compreendam bem porque esta diferença deve importar.
As crianças estão mais capacitadas para processar informação embaraçosa sobre sua adoção que quando chegam à adolescência. Se a história de seu filho inclui situações desagradáveis, no entanto, converse e compartilhe com ele as situações sem emitir juízos sobre elas.

Filhos adotados adolescentes
Entre 13 e 15 anos é muito comum que seu filho adolescente não queira relacionar-se com seus pais biológicos nem com os adotivos. É uma época particularmente difícil para a maioria dos jovens, na qual desejam assimilar-se ao seu meio e não ser diferenciados por alguma característica, seja esta qual for.
A partir dos 16 anos, como sucede com a maioria dos jovens, os adolescentes adotados estão constantemente tratando de descobrir como se encaixam no mundo que os rodeiam, como procurando estabelecer sua própria independência. Frenquentemente, é um período em que mostram um inusitado interesse pelos temas da adoção e por obter informações sobre sua família biológica.
À medida que os adolescentes se desenvolvem sexualmente, começam a analisar as diferentes opções que seus pais tinham, e muitas vezes julgam suas ações e decisões. Também lutam constantemente por buscar seu próprio equilíbrio entre as influências genéticas e as do meio ambiente.


Fonte: guiainfantil.com

Postado por: Ana Cláudia Foelkel Simões
Psicóloga Clínica (11) 97273-3448