quinta-feira, 11 de julho de 2013

A escravidão da CODEPENDÊNCIA

Familiares contagiados pela doença atrelam-se patologicamente ao dependente químico, muitas vezes até mesmo estimulando o comportamento da pessoa adicta.

Antonio, 45 anos casado há 10 anos com uma mulher usuária de drogas. Há 2 anos, em função de uma depressão grave, iniciou tratamento psicológico e medicamentoso. Recentemente sua esposa vendeu vários objetos de valor da casa. Foi então que o marido conseguiu colocar como limite a internação da esposa e seu retorno à casa de seus familiares, finalizando o relacionamento.
Esta é mais uma das inúmeras histórias sórdidas de personagens envolvidos com usuários de drogas e álcool. A situação descrita é apenas um recorte do cotidiano daqueles que se tornam escravos da doença do dependente químico e da própria doença. É desta última que vamos tratar aqui.
A codependência é a dificuldade de estabelecer relacionamentos saudáveis com os outros e consigo mesmo. O codependente sente ansiedade, pena e culpa quando outras pessoas têm problemas; se flagra constantemente dizendo “sim” quando quer dizer “não”; tenta agradar aos outros ao invés de agradar a si mesmo e tolera abusos para manter relacionamentos que muitas vezes são destrutivos.

ETIMOLOGIA
O termo surgiu na década de 1970, depois da criação dos alcoólicos anônimos (AA) em função da necessidade dos familiares dos dependentes de álcool, especialmente suas esposas, que formaram grupos de ajuda mútua para lidar com os problemas advindos da adicção de seus maridos. Formaram então o Alanom, com um programa voltado para as pessoas que convivem com dependentes embasados nos doze passos do programa do AA.
Nem todos os especialistas concordam que codependência é uma doença. Porém, alguns fatores justificam esta nomenclatura. Os codependentes são reativos a uma doença, de forma progressiva. Seus comportamentos, como o dos dependentes químicos são autodestrutivos e compulsivos. A codependência envolve um sistema vicioso de pensar, sentir e comportar-se em relação a si mesmo e aos outros que acaba por causar dor ao codependente. Nos relacionamentos codependentes não existe o enfrentamento direto dos problemas, expressão aberta dos sentimentos e pensamentos, expectativas realistas, individualidade, confiança nos outros e em si mesmo. O codependente tem medo de desagradar e perder o afeto das outras pessoas, principalmente daqueles com quem convive estreitamente, sejam eles cônjuge, filhos, irmãos, pais, etc... Tentam controlar a vida do outro; preocupam-se demasiadamente com as outras pessoas; tentam ajudar de forma errada; dizem sim quando querem dizer não; evitam ferir os sentimentos das pessoas, mesmo que para isso estejam ferindo a si próprios; não confiam em seus sentimentos; acreditam em mentiras e depois se sentem traídas. Aparentemente mostram-se pessoas dedicadas, preocupadas e benevolentes. Na verdade, são permissivos, queixosos, criam desculpas para o comportamento do dependente, tendo dificuldade de entendê-lo como doença. Salvam-no de situações desagradáveis, tornando-se herói da situação. Assumem também o papel de vítimas perante a dor que a situação gera.
RECORRÊNCIA
Torna-se claro na prática clínica que a doença do outro exerce função compensatória na vida e no psiquismo de todo codependente. Ao verificarmos a história pessoal de cada um deles, na grande maioria dos casos, encontramos relacionamentos familiares em que a existência de algum membro com histórico de dependência química se faz presente, ou de algum outro quadro de compulsão como a compulsão pelo jogo, por compras ou até de doença grave.  A existência de problemas familiares graves em que a autoestima seja afetada principalmente pela negligência afetiva, pode gerar o comportamento codependente. No caso de Antonio, o paciente referido inicialmente, a convivência com pai e irmãos alcoólatras o tornou benevolente ao uso de drogas de sua esposa. A normalidade da situação, que também foi vivida em família, o tornou conivente com a dependência de sua companheira. A falta de afeto experimentada na relação com o pai, e a necessidade de salvá-lo da bebida era experimentada intensamente em sua infância. Salvar o pai seria salvá-lo da própria dor de sentir-se rejeitado pelo pai, que não dava conta de si mesmo. Antonio então projetou todas as suas necessidades afetivas no fato de ser o salvador na relação com sua esposa. O que antes projetava no pai passou a canalizar para a companheira. As desculpas para a doença da mulher eram frequentes e os créditos nas promessas que nunca eram cumpridas geravam muita frustração. Antonio abriu mão de sua vida pessoal para vigiar e “salvar” sua esposa. Em vão!
Noites em claro, prejuízos emocionais e financeiros. Tudo em vão, se o próprio dependente químico não tomar em suas mãos as rédeas de sua vida e confrontar o próprio vício. Demorou muito para Antonio salvar-se de si mesmo.
Esta é a melhor atitude que o codependente deve tomar: ter em suas mãos sua própria vida. Ter controle sobre seus medos, seus sentimentos e suas próprias atitudes. Esta é a melhor ajuda que pode ser dada a um dependente químico. O codependente não causou o problema da outra pessoa. Não pode controlar o outro. Não pode curar o problema. Se conscientizar é o primeiro passo para se libertar de relacionamentos destrutivos e deixar que seu parente dependente busque seu próprio caminho. A tentativa de encobrir o dependente ou resolver o problema por ele quase nunca é eficaz. Uma boa estratégia é participar de grupos de apoio para a codependência e concentrar-se em seu bem-estar, no desenvolvimento de sua vida. Estabelecer seus limites e tomar atitudes é o melhor caminho para a liberdade dentro das relações e para o crescimento pessoal do dependente químico, se ele assim o desejar.
A DEPENDÊNCIA AMOROSA
A cada vez que conhecemos a história de um dependente químico quase que invariavelmente nos depararemos com a história em sua maioria de mulheres que amam demais. Fazem tudo por amor. Desenvolvem proteção abrindo mão de suas próprias vidas. Ingenuamente, seria bonito pensar no amor sem limites na busca pela ajuda à pessoa amada. Será que isto é amor? A pessoa que se envolve amorosamente com dependentes químicos termina por desenvolver também comportamentos compulsivos sejam eles sexuais, em busca de amor, ciúmes compulsivos e manipulações doentias. Ao analisarmos estas pessoas individualmente percebemos que existem motivações internas para que se envolvam intensamente nestas relações doentes. Em sua maioria possuem histórico de famílias disfuncionais e de sentimentos de desamparo e desafeto, sendo essa a sua origem. Busca-se inconsciente e compulsivamente solucioná-los em relações atuais, sem sucesso e com muitas frustrações.
Amar demais significa amar o outro em detrimento de si mesmo. Significa falta de amor próprio e submissão ao outro e a seus valores. Significa se anular e viver pelo outro e não com o outro. A vida pessoal se perde nesta jornada, pois dão e não recebem em troca. Se sentem injustiçadas, alimentam amor e ódio e desenvolvem ciúmes compulsivos, buscam se fazer importantes pela proteção e cuidados excessivos, sem limites, alimentando a doença do dependente químico e a sua própria. O caminho da insegurança, da depressão e da doença é inevitável.
Prevenir esta doença seria o ideal. Uma vez dentro dela é importante a conscientização de que se está doente e de que se precisa de ajuda.
A percepção da incapacidade de deixar de ver uma pessoa específica, mesmo sabendo que encontrá-la é destrutivo.  Ameaçar a estabilidade financeira ou posição na sociedade ao manter um parceiro sexual. Perceber que a vida está ingovernável por causa do comportamento amoroso é um critério importante para o diagnóstico da dependência amorosa.
Portanto, olhar para si mesmo, buscar o autoconhecimento, melhorar a autoestima e buscar o crescimento pessoal e profissional além da ampliação de relacionamentos sociais são o melhor caminho para a cura. Cura não só do dependente emocional, mas é a postura adequada frente ao dependente químico. Apenas assim, pode-se vislumbrar a possibilidade de que ele se cuide.
A frequência a grupos de ajuda como o Mulheres que amam demais (MADA), o Codependentes anônimos (CODA), entre outros, o tratamento psicológicos e muitas vezes o medicamentoso, além da leitura de bibliografia especializada são suportes indispensáveis na busca da independência emocional e do amor genuíno por si mesmo e pelo outro.

AÇÃO BENEVOLENTE
Comportamentos e atitudes mais comuns para identificar um relacionamento codependente:
-O codependente é guiado também por comportamentos compulsivos como ciúmes, superproteção dos quais não tem controle;
-O codependente acha que sua felicidade depende do outro. Muitas vezes tem a sensação de que sua vida não tem sentido sem aquele relacionamento. Em função disso, encobre-o e assume responsabilidades por ele. Há a tolerância a abusos físicos e emocionais;
-No relacionamento o codependente se sente responsável pelo outro, como uma relação infantil, não de adultos;
-Na codependência busca-se a resolução de problemas que não se pode mudar. Sua energia é gasta em situações sem solução ao invés de ser usada no crescimento pessoal e na busca de relações saudáveis;
-A criação de expectativas fantasiosas sobre o outro, a negação acerca da doença do dependente, a dificuldade e dar limites em relacionamentos, em dizer não quando precisa se proteger são características do codependente;
-Busca de controle sobre o dependente envolvendo-se em situações aberrantes;
-Solicitações de mudança de comportamento ao dependente são frequentes, mesmo com a clara evidência de que ele não vá mudar;
-Em função disto passam a apresentar frustração, mágoa, depressão. Vivem em extremos de ânimos e sentimentos.

Fonte: Psique Ciência & Vida.

Postado por: Ana Cláudia Foelkel Simões 

Cura para o Mal de Parkinson

Terapia genética: abordagem está sendo submetida a um teste preliminar com pequeno grupo de pacientes humanos, os quais mostraram sinais promissores de melhora.
Uma potencial terapia genética para o Mal de Parkinson é capaz de corrigir déficits motores em macacos sem causar os movimentos involuntários e espasmódicos que geralmente acompanham os tratamentos a longo prazo para a doença.
No momento, o tratamento mais comum para o Mal de Parkinson consiste na reposição da dopamina – neurotransmissor que está ausente nos portadores da doença – pela administração de um precursor da dopamina – a levodopa ou L-DOPA. A maior parte dos pacientes, no início do tratamento recupera o controle motor num nível muito próximo ao normal, mas depois de vários anos de uso do L-DOPA os pacientes passam a sofrer com debilitantes efeitos colaterais físicos e psicológicos.

NEUROTOXINA POTENTE
Para corrigir essa situação Stephane Palfi, neurocirurgião do Institute of Biomedical Imaging pertencente à Comissão de Energia Atômica Francesa, em Orsay, e seus colegas, entre os quais pesquisadores da Oxford, no Reino Unido, resolveram recorrer à terapia genética. Primeiramente, eles administraram em macacos uma neurotoxina muito potente capaz de fazer com que os animais desenvolvessem tremores corporais, postura instável e severa rigidez nas juntas – todos indicadores de um estágio avançado do Mal de Parkinson. A seguir, os pesquisadores injetaram no cérebro dos macacos três genes essenciais para a síntese da dopamina. Eles puderam perceber melhoras significativas no comportamento motor depois de apenas duas semanas, sem quaisquer sinais visíveis de efeitos colaterais.
“Não percebemos quaisquer problemas nesses macacos”, afirmou Palfi.
Um dos animais chegou a exibir recuperação sustentada mais de três anos e meio após o procedimento. Surpreendentemente, os macacos não exibiam os movimentos espasmódicos e descontrolados que ocorrem à maioria dos pacientes humanos e macacos após prolongado tratamento oral com L-DOPA.
“O sucesso obtido com os macacos abre caminho para futuros estudos com seres humanos”, disse Palfi, que relatou seus resultados com animais na revista científica Science Translational Medicine.
“Esta é a situação exata que encontramos em nossa prática clínica”, ele afirmou. A equipe de Palfi já testou duas diferentes doses de um vírus que contém três genes, em seis pacientes humanos, e agora está investigando uma dose intermediária que se equipare àquela utilizada nos macacos, feitos os necessários ajustes de acordo com o tamanho do cérebro. “Depois que os pesquisadores tiverem encontrado a dose ótima, eles planejam avançar com o tratamento experimental para a Fase II de testes”, disse Palfi.

TUDO OU NADA
A técnica de Palfi não é a única terapia genética atualmente adotada para o Mal de Parkinson. Alguns pesquisadores estão utilizando genes que fornecem fatores de crescimento, que possam impedir a morte dos neurônios produtores de dopamina. Outros estão introduzindo genes que inibem a atividade neural excessiva associada ao Mal de Parkinson, da mesma maneira que no procedimento cirúrgico conhecido como estimulação cerebral profunda. E há ainda outros pesquisadores que se concentram em genes únicos – em vez de três – para atuar na síntese de dopamina.
A equipe de Palfi, no entanto, foi a primeira a utilizar em um primata todos os três genes de dopamina num único vetor viral. O objetivo dessa abordagem é eliminar a necessidade de L-DOPA e dessa forma seus efeitos colaterais. “Mas o uso dessa técnica significaria que os clínicos já não mais seriam capazes de ajustar os níveis de dopamina do cérebro de acordo com as necessidades do paciente”, observou Jamie Eberling, diretor associado dos programas de pesquisa da Michael J. Fox Foundation for Parkinson’s Research, em Nova York.
Como membro da equipe de pesquisadores do Lawrence Berkeley National Laboratory, em Berkeley, na Califórnia, Eberling participou da Fase I de teste de uma terapia genética que substituía apenas um dos genes associados à dopamina, com a finalidade de reduzir os efeitos colaterais.
Com a abordagem do gene único, “nós poderíamos controlar os níveis de dopamina, apesar de que não poderíamos controlar a expressão do gene; já com essa abordagem dos três genes, não é possível controlar nenhum dos dois fatores”, disse Eberling.
RESPOSTAS NEURAIS HIPERATIVAS
Michael Kaplitz, neurocirurgião do Weill Conell Medical College de Nova York, ajudou a conduzir um teste de terapia genética para mitigar respostas neurais hiperativas e adverte que é difícil extrapolar os resultados obtidos com os macacos para os humanos porque a substância química utilizada para induzir os sintomas do Mal de Parkinson destrói neurônios com rapidez muito maior do que a doença costuma destruir em humanos.
Ainda assim, ele disse “quanto mais dados com animais tivermos para embasar um estudo com humanos e quanto mais dados com humanos obtivermos, mais seremos capazes de compreender quais têm sido os obstáculos para um desenvolvimento bem-sucedido, assim como para a transposição das terapias genéticas para a prática clínica”.


Fonte: Nature Review - Psique Ciência & Vida

Postado por: Ana Cláudia Foelkel Simões

quinta-feira, 4 de julho de 2013

ADOLESCENTES X DROGAS

Infelizmente pesquisas revelam que 20% dos jovens brasileiros de classe média já experimentaram drogas. Em pesquisa da OBID (Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas), o índice de meninas, de 12 a 17 anos, usuárias de álcool cresceu de 44,7% em 2001 para 50,8% em 2005. Outros dados impactantes na cidade de São Paulo são dos que já utilizaram psicotrópicos pelo menos uma vez na vida, sendo meninos e meninas concomitantemente: Maconha 8,4% e 5,2%; Crack 0,3% e 0,3%; Anfetamínicos 2,5% e 3,8%; Tabaco 21,5% e 30,2% e Álcool 66,1% e 73,8%. A pesquisa revela que 3,5% dos meninos e 2,8% das meninas entrevistados fazem uso frequente de algum tipo de droga.




Qual a postura de enfrentamento necessária para os pais diante de tamanha problemática social?
Sabemos que o uso de drogas causa prejuízos importantes e graves complicações na saúde de um indivíduo, além de produzir efeitos negativos nos aspectos pessoal, social e, futuramente, profissional. O uso de álcool em altas doses pode afetar grande parte do organismo, como sistema gastrointestinal, cardiovascular e nervoso, gerando, entre outros, déficits cognitivos e déficits de memória grave.
Ao mesmo tempo, o álcool e as drogas são poderosos socializadores, trocando a insegurança pela aceitação no grupo. De acordo com o modelo de aprendizagem social, beber é resultado destas influências sociais, seja de familiares ou colegas, são estas referencias que definem crenças e expectativas com relação ao álcool e seu uso.

O papel dos pais é determinante na manutenção ou eliminação de tal hábito. Um exemplo, pais que se utilizam do álcool de forma exagerada, podem gerar nas crianças a necessidade por comportamentos semelhantes, esse modelo não se aplica somente a beber, mas também para o uso de uma substância que possa produzir o mesmo efeito. É importante ressaltar que atitudes radicais de pais abstinentes é também um risco aumentado para o desenvolvimento de problemas com bebidas.

Habitualmente encontramos em textos e artigos alguns comportamentos citados como denunciadores de possível uso de drogas, como falta ou excesso de apetite, afastamento social, queda no rendimento escolar, olhos avermelhados ou vidrados, falta ou excesso de sono, irritabilidade, isolamento familiar e gastos excessivos, porém, estes podem ser sérios enganadores. Vale lembrar que o uso de drogas tem início ocasional e somente quando o adolescente já apresenta uso ou abuso de determinada substância é que os pais começam a identificar sinais, além de que com as alterações físicas e emocionais típicas da adolescência, nossos jovens estão mais suscetíveis a estas exposições.
Nota-se que pais que mantém forte vínculo afetivo com seus filhos, apresentam maior facilidade para identificar problemas e mudanças comportamentais, lembrando que proximidade não significa controle e “xeretar” os pertences de seu filho não ajudará na situação, mas sim um diálogo aberto, demonstração de amor e até de preocupação.

Observa-se também que frequentemente os adolescentes que recorrem às drogas apresentam, desde pequenos, dificuldades em lidar com regras, o que os torna pouco resistentes à frustração. Portanto, além da comunicação eficaz e com afetividade, deve existir seriedade no cumprimento das regras estabelecidas pelos pais, demonstrando acolhimento, mas firmeza.
Sabemos que não existem receitas para a educação de nossos filhos, principalmente porque cada indivíduo é único e apresenta características próprias em suas relações interpessoais, mas uma educação pautada no amor, na segurança e na transparência gera benefícios na comunicação da família e, consequentemente, na proposta de uma vida social mais saudável.       

Aos adolescentes:
"Não deixe que sua vida termine como uma foto à ser usada para alertar outros jovens na mesma situação. Você é muito melhor do que tudo isso. 
Coragem, força e determinação, são fatores que você encontrará dentro de você e com as pessoas que tem amam." (Ana Cláudia Foelkel Simões)

Fonte: Educare Ass. Psicoeducativa

Postado por: Ana Cláudia Foelkel Simões

segunda-feira, 1 de julho de 2013

ENCOPRESE INFANTIL

Encoprese é uma doença relativamente comum na infância que continua a ser mal compreendida, por esta razão, é importante explicá-la.
  

“do grego em-kópros-osis, etimologicamente,
processo patológico não inflamatório que afeta a defecação”. (Miguel Ângelo Simon)

Encoprese Infantil denomina uma situação de dificuldade que algumas crianças apresentam para controlar adequadamente os esfíncteres. Pode-se constatar através de variações na quantidade e consistência de fezes na cueca ou calcinha e em outros lugares impróprios, na ausência de patologia orgânica.

Diversos estudos realizados com criança puderam constatar que a encoprese é uma doença Psicofisiológica do trato gastrintestinal “no qual se constata a existência de uma importante interação entre eventos ambientais, hábitos comportamentais, experiência emocional e fisiologia anorretal.” (Simon, 1996).

Segundo o DSMIV os critérios para o diagnóstico são:
·                     Critério A - Evacuação repetida de fezes em locais inadequados (por ex., roupas ou chão), seja voluntária ou involuntária.
·                     Critério B - O evento deve ocorrer pelo menos uma vez por mês por no mínimo três meses
·                     Critério C - A idade cronológica da criança deve ser de pelo menos quatro anos (ou, para crianças com atrasos no desenvolvimento, uma idade mental mínima de quatro anos).
·                     Critério D - A incontinência fecal não deve ser devida exclusivamente aos efeitos fisiológicos diretos de uma substância (por ex., laxantes) ou a uma condição médica geral, exceto através de um mecanismo envolvendo obstipação.

A encoprese já definida claramente, temos também que classifica-la em:
Primária – ausência de controle, ou seja, a criança nunca adquiriu o controle voluntário dos mecanismos de evacuação
Secundária – perda de controle, ou seja, a criança chegou a desenvolver o controle voluntário dos mecanismos de evacuação, então ocorre à regressão. 

Há dois subtipos importantes:
Retentiva – consequência da constipação crônica com incontinência por transbordamento.
Não retentiva - refere-se à sujidade inadequada, sem evidência de prisão de ventre e retenção fecal. Uma causa orgânica para a encoprese não retentivo raramente é identificado. A avaliação médica é geralmente normal, e sinais de constipação são visivelmente ausentes.

Aproximadamente 80-95% das crianças com encoprese têm uma história de constipação ou evacuações dolorosas. Os restantes 50-20% tem encoprese não retentivo, no entanto, muitas destas crianças têm uma história remota de constipação ou defecação dolorosa ou demonstram evacuação incompleta durante a defecação ao exame físico ou a avaliação radiográfica.

Muitas vezes, a encoprese é acompanhada por algum grau de desordem das emoções ou comportamento. Não é clara a linha de separação que acompanha uma desordem de emoções e distúrbios comportamentais. Estudos  sugerem que a maioria das dificuldades comportamentais associadas com encoprese pode ter a encoprese como resultado e não a causa.

A criança com encoprese frequentemente sente vergonha e pode ter o desejo de evitar situações (por ex., acampamentos ou escola) que poderiam provocar embaraços. O grau de prejuízo está relacionado ao efeito sobre a autoestima da criança, seu grau de ostracismo social por seus companheiros e raiva, punição e rejeição por parte dos responsáveis por seus cuidados. O fato de a criança sujar-se com fezes pode ser deliberado ou acidental, resultando de sua tentativa de limpar ou esconder as fezes evacuadas involuntariamente. Quando a incontinência é claramente deliberada, características de Transtorno Desafiador Opositivo ou Transtorno da Conduta também podem estar presentes. Muitas crianças com encoprese também têm enurese.

O treinamento inadequado e inconsistente do controle esfincteriano e o estresse psicossocial (por ex., ingresso na escola ou o nascimento de um irmão) podem ser fatores predisponentes.

A encoprese pode persistir com exacerbações intermitentes por anos, mas raramente se torna crônica.

Algumas causas:
- Predisposição física ineficiente para a função intestinal e motilidade
- Tratamento prolongado com laxantes e supositórios.
- Fissuras anais.
- Prisão de ventre.
- Pacientes com dietas de partida para a constipação.
- Causas de origem emocional.
- Comum em crianças com autismo ou graves distúrbios emocionais.

A criança pode perceber a evacuação como uma experiência negativa e segurar as fezes por medo das consequências do resultado sujo e, como consequência, será retido resultando em encoprese. 

Em qualquer idade, estresse psicossocial ou doença pode determinar a regressão do controle intestinal ou uma mudança nos hábitos intestinais que podem melhorar a encoprese.
  
Encoprese é mais comum durante o dia que à noite.
  
O sucesso do tratamento da encoprese requer uma combinação de terapia médica, intervenção nutricional e intervenção terapia comportamental. 

A psicoterapia ajudará a criança a lidar com os sentimentos associados de vergonha, culpa, isolamento, baixa autoestima.  
  
Pensar que é um problema temporário pode levar a complicar o quadro.

Por: Simone Barbosa Pasquini

Postado por: Ana Cláudia Foelkel Simões

sexta-feira, 28 de junho de 2013

ORIENTAÇÃO AOS PAIS

Meu filho está com dificuldades, o que posso fazer pra ajudar?

Esta é a pergunta mais comum entre pais de crianças que apresentam dificuldades na escola. A primeira coisa a se pensar é que não existe um manual de instruções para a criança. O que é importante saber é que o jeito da criança agir com determinadas coisas é aprendido em suas interações; e, portanto, é possível criar um ambiente que estimule seus estudos e desenvolvimento pessoal.


Aqui vão algumas dicas de Zoega et. all. (2004) sobre como fazê-lo:

1º Está claro, para seu filho, quais são seus direitos e deveres? É importante que exista clareza sobre o que são os direitos e deveres de seu filho. Seus direitos são conquistados à medida que cumpre seus deveres, e devem ser respeitados pelos pais.

2º O seu filho possui uma rotina de estudos organizada? É importante que os horários da criança sejam bem organizados e que sua rotina de estudos seja respeitada. Cada tipo de atividade deve ter um horário, e a criança rende mais se estudar antes de se cansar com outras atividades.

3º Existe clareza sobre quais são os limites da criança? É importante que ela aprenda que regras são para serem seguidas, e que o não seguimento, tem como consequência a perda de alguns direitos (como assistir TV, por exemplo). À medida que a criança cresce é importante que ela possa participar do estabelecimento destas regras, o que contribui para desenvolvimento de sua responsabilidade.

4º Você acompanha seu filho em suas atividades? É importante que os pais acompanhem os filhos em suas tarefas, mas sem criar um clima de pressão ou cobrança, mas de incentivo e valorização pelo que ele faz. Se for ajudar, é importante que não fale por ele, mas apenas ajude.

5º Você dá autonomia a seu filho sem deixar de cuidar dele? O incentivo à independência é importante para que a criança torne-se uma pessoa responsável mais tarde. Essa independência deve ser fornecida aos poucos, dosando proteção e autonomia.
6º Você o ajuda a ter um contexto adequado aos estudos? Com mesa e cadeira confortável, poucos movimentos ou barulhos que possam tirar sua atenção, sem fome, sede calor ou frio.

7º Você estabelece interações positivas com seu filho? Embora castigar faça com que, naquele momento, a criança deixe de comportar-se inadequadamente, isto não a ensina a conduta correta. E longe do risco do castigo, se o contexto favorecer, ela voltará a comportar-se inadequadamente. É mais proveitoso que os pais valorizem como puderem o que ela faz de adequado, por mais que esteja apenas cumprindo seu dever. Esse comportamento valorizado tenderá a ocorrer mais vezes.

8º Você demonstra afeto pelo seu filho? Muitos pais não o fazem por não terem tempo, ou tentam suprir com presentes ou coisas do tipo. Se os pais são sempre afetuosos com os filhos é bem mais fácil fazê-los seguir regras com boa vontade. Eles farão o que o pai quer por gostar dele, e não por temê-lo.

9º E você, cumpre com seus deveres? A criança aprende muito mais vendo do que ouvindo. Se o pai cobra dela que ela cumpra regras, compromissos e deveres, mas ele próprio não cumpre dificilmente a criança o fará.

10º Você conversa com seu filho? Apenas interroga, ou simplesmente não conversa? É importante que os pais mostrem-se dispostos a ouvir e ENTENDER o filho. Isto ajuda a encontrar a solução para a maioria dos problemas. Um interrogatório, no entanto, onde apenas o pai pergunta e o filho responde, piora a situação. Dar sermões também diminui as chances de que a criança fale. Coloque-se no lugar da criança.

11º Ajude-a a pensar no que aprende. Ou pelo menos ajudar a criança a encontrar aplicabilidade naquilo que aprende. Conversar com ela sobre o que ela estuda pode ser interessante.

12º Incentive o brincar. Uma criança que brinca tem melhor qualidade de vida, menos estresse e, consequentemente, melhor rendimento.

13º Você se interessa pela vida de seu filho? É importante que seja demonstrado interesse pela vida do filho como um todo, e não apenas pelos resultados que ele apresenta na escola. Isso faz com que a criança sinta-se mais valorizada e, por consequência, se esforce mais.




Já parou pra pensar sobre como é que o seu filho aprende?
Muita gente com certeza diria que não.

A aprendizagem é um processo que, pode-se dizer, inicia-se de fora pra dentro. A criança nasce com um conjunto de características físicas e comportamentais que são comuns a todos os outros seres humanos, e é a partir destas características que ela inicia a sua interação com o mundo.
A criança, a princípio, possui apenas movimentos aleatórios. À medida que ela vai experimentando o meio que a cerca, estes movimentos vão gerando certas consequências que, ao se associarem ao contexto no qual ocorrem, passam a controlar as suas ações. Por exemplo: um bebê recém-nascido move aleatoriamente o braço. Um belo dia descobre que movendo em certa direção, terá como consequência bater no móbile e fazer um som. Ela aprende então que, na presença do móbile, aquele movimento tem como consequência o “som”, aprendendo, deste modo, a extrair o som do móbile. Se não houvesse a consequência (som), ela não aprenderia a bater no móbile.

A mesma coisa acontece com a maioria dos outros comportamentos da criança. O estudar, por exemplo, o que tem como consequência? O reconhecimento dos pais? Mais horas, para se divertir a tarde? O direito de jogar vídeo-game? Sim, para que a criança aprenda a estudar, este comportamento precisa ter consequências agradáveis para ela. Esta consequência tem, necessariamente, que ser algo do interesse da criança; ou seja, algo que ela goste.

Um detalhe importante é que estas consequências devem ser imediatas; isto é, quanto menor o intervalo de tempo entre o momento em que a criança comportou-se adequadamente e o momento em que a consequência foi apresentada, maiores são as chances daquele comportamento, ser aprendido.

Parece artificial? Sim, mas até que a criança de fato tenha aprendido a estudar, dificilmente este comportamento irá gerar consequências naturais que exerçam controle sobre ele. Com o tempo, o próprio estudar tornar-se-á prazeroso para ela, mas até então, é necessário que os pais contribuam deste modo.

Encarar o “estudar” como nada mais do que uma obrigação da criança é um erro. Embora os pais pensem assim, é bobagem querer impor isto ao filho. Pelo contrário, se os pais associarem o “estudar” com broncas, imposição, brigas ou coisas do gênero, estarão apenas contribuindo para que a criança goste cada vez menos de estudar.

Se a aprendizagem da criança ocorre assim, de acordo com as consequências que seu comportamento gera no ambiente, culpar por não aprender, é, então, apenas fugir da própria responsabilidade. Como dito antes, é certo que nenhuma criança nasce com manual de instruções, mas é possível aprender a lidar com ela e programar condições para que ela desenvolva o gosto e o hábito de estudar.



Por: E.C. de Almeida Neto

Postado por Ana Cláudia Foelkel Simões

CRIANÇA DORMINDO NA CAMA DOS PAIS E COM OS PAIS

Lugar de criança dormir é no quarto e na cama (dela!)


Algo muito comum nas famílias com filhos é o fato de estes dormirem junto aos pais. Geralmente esse hábito se inicia após o nascimento, quando o bebê precisa de monitoramento mais próximo, sobretudo no período noturno. No entanto, não é incomum esse hábito se estender a outras fases do desenvolvimento, como a adolescência. Independente do lugar em que os filhos dormem – se na mesma cama ou no mesmo quarto dos pais – há um consenso a respeito da dificuldade em que os adultos enfrentam em fazê-los dormirem sozinhos, que muitas vezes é proporcional ao tempo em que dormem sob a companhia dos pais.


De fato, é extremamente prazeroso ter um filho por perto, sobretudo se este for um bebê. Dormir junto com uma criança é tido como um dos grandes prazeres dos pais: é algo pequenino, inocente, cheiroso e macio, algo por quem se nutre um grande afeto, um ser que traz consigo não só os genes, mas a história do casal. Fazê-lo permanecer por perto é desfrutar de tal prazer continuamente, ali, diante dos olhos e ao alcance das mãos.
Analisando melhor a situação, pode-se perceber que pernoitar com filhos tem outras funções. Agindo assim, é possível reduzir o tempo do choro noturno – ávido pela amamentação ou por colo materno diante de um pesadelo – diminuir o esforço físico de se levantar e de se dirigir até o filho (enfrentando calor ou frio), além de se evitar o desgaste em lidar com a (suposta) resistência da criança em ficar longe dos pais e vice-versa.
Ao passo disso, é possível afirmar que a criança também sente prazer ao lado dos pais: há o conforto da companhia, a segurança que lhe é sentida (que muitas vezes afasta medos infantis), o próprio contato – que muitas vezes lhe falta durante o dia – também são fatores extremamente satisfatórios para ela.
Embora tal contexto traga várias consequências “positivas” para todos os envolvidos, podem ocorrer diversas complicações no desenvolvimento e à adequação infantis. Muitas vezes, quando a criança cresce, os pais tentam colocá-la de volta ao seu quarto e, diante de sua resistência, permitem que ela durma em suas companhias mais uma vez. Esta inconsistência dos limites, que não ocorre de forma contínua, faz a criança entender que sempre há uma possibilidade de permanecer junto a eles. Não é incomum, também, encontrar crianças que tem seu sono perturbado por pesadelos ou por imagens de terror no próprio quarto, situações que favorecem a busca infantil pelo colo paterno na madrugada.
Verificar apenas o comportamento de dormir junto aos pais, na verdade, é algo muito limitado. É possível constatar que este comportamento é apenas um que se manifesta no padrão de dependência. Pais que não se sentem confiantes em deixar suas crianças por um momento longe de seus olhos muitas vezes são aqueles que podem proteger em demasia a ponto de provocar um atrofiamento do repertório de habilidades sociais e das atividades diárias. À medida que a criança cresce, ela desenvolve autonomia em suas ações rotineiras (comer, vestir-se e se limpar, por exemplo); então, nada mais natural que também gerar maturidade ao pernoitar sem a presença dos pais ou cuidadores.
Além disso, também existem implicações para a intimidade do casal. Caso os cônjuges estejam privados de afeto e de sexo ao longo do dia, muito provavelmente o momento de dormir seja aquele em que se dará a intimidade sexual. Assim, como os cônjuges farão para preservar este momento, sem que ele possa ser presenciado por outra pessoa? Na cama, é importante que o casal seja visto como tal, não essencialmente enquanto pais. A intimidade do casal precisa ser reservada e, de certa forma, a presença de crianças pode colocar isso a perder. É de se supor, também, que a manutenção do filho junto aos pais durante o pernoite possa ser visto como uma justificativa e uma barreira para a intimidade em casais que não estão bem. 

Cabe destacar que também se observa que a ausência do cônjuge torna mais propícia a companhia do filho na cama. Em casos de viuvez ou de separação, ter a prole por perto pode trazer conforto e ameniza a solidão. No entanto, simbolicamente faz a criança ocupar um espaço que não lhe pertence exatamente, fato que ficará mais claro quando o cônjuge solitário for se unir a outra pessoa. Este pode resistir em constituir outra família em virtude da criança que dorme consigo, com receio de magoá-la ou para evitar resistências quanto a dormir em outro local.
Existem algumas orientações que são válidas neste momento. A primeira delas diz respeito ao período em que crianças podem dormir sozinhas. Acredita-se que aos 6 (seis) meses ela pode dormir sozinha, sob monitoramento noturno dos pais quanto à amamentação e bem-estar geral (temperatura, conforto e segurança). Recomenda-se que os pais se revezem nesta tarefa, para minimizar o efeito aversivo do deslocamento até o quarto do filho e dos cuidados noturnos.
Cabe destacar que o momento de dormir deve ser prazeroso para pais e filhos. Pode-se contar histórias, cantar, ouvir juntos cantigas de ninar, conversar sobre o dia ou sobre um assunto específico. O ideal é que isso seja circunscrito no ambiente natural da criança, ou seja, no seu próprio quarto, ao invés de se iniciar no quarto do casal e terminar com os pais conduzindo a criança, já adormecida, ao seu aposento.
Também é válido organizar a rotina e o ambiente para criar contextos favoráveis ao sono solitário. Assim, estipular um horário para a criança dormir e fazer o restante da casa adormecer (por exemplo, desligar aparelhos eletrônicos e luzes dos aposentos, diminuir o movimento na casa, entre outros), assim como eliminar estímulos de distrações dentro do quarto infantil (como desligar as luzes, deixar a porta entreaberta ou proporcionar uma penumbra através do abajur) são dicas salutares que tendem a um bom resultado.
Outra dica se refere ao afastamento gradual [1] dos pais enquanto se ensina a criança a dormir sozinha. Por exemplo, no início do processo, os pais podem permanecer deitados sob a cama, junto do filho, saindo de lá quando a criança adormecer. Após alguns dias agindo assim, quando os pais perceberem que podem se afastar mais, ao invés de ficarem deitados, podem ficar sentados, interagindo com a criança. Diante de sucessivos episódios, podem ficar no quarto do filho em pé e também se direcionando gradativamente cada vez mais para o rumo da porta, até as suas completas saídas.
Como já dito exaustivamente aqui no blog [2], é importante que, uma vez estabelecidos os limites, os pais possam sustentá-los mesmo que o filho venha a resistir. Obviamente, existem exceções que precisam ser avaliadas com cautela, como uma doença, medo ocasional por algum evento específico (como falecimento de alguém) ou mal-estar súbito, casos em que seria necessário avaliar a pertinência de a regra ser mantida. Caso seja relevante suspender a regra momentaneamente, deve-se explicar à criança por qual motivo ela foi burlada, limitando a concessão a este episódio específico. 


Diante de limites, é natural haver resistência da criança em aceitá-los. Ela, provavelmente, desafiará através da birra ou dos insistentes pedidos em dormir com os pais pelo medo de ficar sozinho. Deve-se verificar a função destes comportamentos: algumas vezes eles podem ser emitidos apenas com a finalidade de permanecer junto aos pais. Caso haja verbalizações da criança quanto a ficar sozinho e ver/ouvir coisas, uma boa alternativa é verificar, junto com o infante, a veracidade desses fatos: ir ao quarto junto com ela e buscar evidências (debaixo da cama, no armário, dentro das gavetas, entre outros) de que tal situação não procede, assegurando que a criança está em segurança e que os pais podem ficar com ela (no quarto dela) até que adormeça novamente.
É possível que quando houver mudança de casa ou quarto (como em viagens, por exemplo) a criança volte a apresentar tais padrões. É importante dizer que, mesmo nesses casos específicos, a conduta deve ser a mesma: permanecer com a criança no novo ambiente, favorecendo a sua adaptação e esvanecendo aos poucos a presença dos pais. Recomenda-se também que os pais reconheçam cada conquista da criança, demonstrando satisfação quanto à sua superação do medo (“estou feliz por você!”), atribuindo-lhe um prêmio simbólico pela superação (“troféu coragem” ou similar).
No cotidiano verifica-se o quanto o ser humano tende a evitar situações que exigem um esforço (e um desgaste) na resolução de problemas, sobretudo quando as consequências são aversivas. Apesar de parecer a princípio que o comodismo é mais válido nesse caso, na verdade é mais fácil e saudável o adulto quebrar a sua zona de conforto agora do que ensinar a criança dormir no seu próprio quarto, quando esta já estiver maior e com o padrão mais cristalizado.


[1] Esvanecimento, ou Fading, trata-se de um procedimento psicológico em que um comportamento que ocorre em uma situação também passa a ser emitido em outra situação a partir da mudança gradual do estímulo, da primeira para a segunda ocasião (LUNDIN, 1977). Assim, no exemplo em questão, o objetivo do esvanecimento é fazer com que as crianças passem a dormir a partir da presença e proximidade cada vez menor dos pais.
[2] Confira aqui o texto “Ele é o rei da casa. Adivinha quem são os súditos?”, publicado em julho de 2012 no blog.

Fonte: InPA - Instituto de Psicologia Aplicada

Postado por: Ana Cláudia Foelkel Simões

TIMIDEZ INFANTIL

O termo timidez tecnicamente é chamado de retraimento social, mas também várias outras denominações, como inibição e introversão. Neste texto, estes termos serão utilizados sem distinção de significados.

A timidez  ilustra um padrão de comportamento caracterizado por déficit de relações interpessoais e uma tendência estável e acentuada de fuga ou evitação do contato social com outras pessoas. Este padrão abrange pessoas de todas as idades, muitas vezes iniciando na própria infância. Porém, surpreendentemente recebe atenção insuficiente das famílias, da escola e dos profissionais que trabalham com o público infantil. E nesse caso, nem sempre o tempo se encarrega da reversão do quadro: muitos adultos tímidos já foram crianças socialmente inibidas. Mas afinal, o que é a timidez, quais as medidas preventivas e em que consiste o tratamento? São as questões que serão respondidas neste texto.
Tecnicamente, a timidez está categorizada no âmbito dos comportamentos internos, ou seja, comportamentos inadequados que se expressam “para dentro”, tendo como destinatário o próprio sujeito que o emite. A outra categoria, que abrange comportamentos que se expressam para fora (como agressividade, por exemplo), tem como destinatários os demais e, portanto, se torna mais visível aos olhos por perturbar e alterar o meio onde são produzidos.

No contexto escolar, ambiente onde alunos com menos agitação motora e que produzem menos barulho são desejáveis para o bom andamento das aulas, as crianças tímidas são muitas vezes elogiadas pelo seu comportamento retraído. Na família, também é possível verificar pais ou avós se vangloriando por terem filhos bem comportados, que não mexem nos pertences alheios ou que não fazem travessuras.
Como se pode perceber, a timidez enquanto comportamento interno não chama muito a atenção dos demais, visto que o prejudicado é o próprio indivíduo. No entanto, quando o embaraço diante de uma exposição se faz visível aos olhos (como quando uma criança é levada ao quadro para resolver uma tarefa ou quando precisa fazer uma leitura em voz alta perante um público) é que se tem uma dimensão da profundidade do problema. Porém, o alvo do prejuízo comportamental (se o próprio sujeito ou outras pessoas) não determina a gravidade da perturbação. Ou seja, os comportamentos internos não são menos importantes ou menos danosos que os demais: estes também precisam de intervenção profissional para que haja melhor desempenho social e qualidade de vida.
Na Psicologia, o grau de dificuldade relacional pode ser classificado de acordo com a motivação para a aproximação e a evitação. Quanto a isso, existem as classificações: baixa sociabilidade, baixa aceitação social, a timidez propriamente dita e o estilo de relação passivo ou inibido.
Refere-se à baixa sociabilidade quando se trata de crianças que tem uma baixa motivação de aproximação social; porém, não há necessariamente um alto grau de evitação. São aquelas crianças que preferem estar sozinhas ao invés de acompanhadas. Não há a presença de ansiedade social e, quando exposta a grupos, a pessoa costuma apresentar bom desempenho nas conversações. Nos primeiros anos da infância, uma baixa sociabilidade não costuma ser desadaptativa. No entanto, em fases posteriores, esta baixa sociabilidade é apontada como um risco.
Quando há uma baixa frequência de interação social motivada por uma baixa aceitação dos demais, sendo excluídas e/ou esquecidas pelos colegas, tem-se o retraimento por baixa aceitação social. Algo que chama a atenção é que crianças rejeitadas são mais vulneráveis a problemas exteriorizados (como agressão, impulsividades, entre outros), acarretando um risco significativo ao desenvolvimento infantil e à sociedade. 


Por outro lado, a timidez propriamente dita envolve aquelas crianças que estão motivadas à aproximação, mas também à evitação. Ou seja, elas gostariam de interagir com os outros, mas acabam evitando o contato por determinadas razões, como o excesso de cautela e receio diante de avaliações e desaprovações.
Existe também a categoria de timidez referente ao estilo passivo nas relações interpessoais. Para tanto, é mister abordar a assertividade, termo que se refere à expressão direta dos próprios sentimentos e a defesa dos próprios direitos pessoais, sem ferir ou negar os direitos dos outros. Neste âmbito, observa-se que as pessoas tímidas costumam agir de forma passiva nas relações interpessoais. Ou seja, há a violação de seus próprios direitos pela dificuldade ou impossibilidade de expressar sentimentos, pensamentos e opiniões. Assim, a pessoa se anula perante os outros, mesmo tendo o direito de se posicionar e de se mostrar aos demais.
Uma pessoa passiva, portanto, é uma pessoa dita inibida, introvertida, que muitas vezes se frustra por não conseguir atingir seus objetivos. Sem expressão, os outros se adiantam em resolver seus problemas ou a decidir por elas. Temendo deteriorar a relação com os outros (ou de ser mal compreendida), adota comportamentos de submissão, esperando que as outras pessoas percebam suas próprias necessidades e anseios. Como se pode observar, este tipo de comportamento tem como objetivo apaziguar os outros e evitar conflitos. Assim, esquivar ou fugir dessas situações é muito cômodo, o que favorece a manutenção do quadro.
Acompanhando estas linhas, o leitor pode constatar que crianças passivas são facilmente presas de pessoas mal intencionadas, havendo risco de serem avassaladas ou ameaçadas pela ausência ou deficiência da expressão. Assim, poderão ser manipuladas e controladas pelos demais e não defenderão seus próprios direitos e anseios. Ou seja, poderão aceitar brincar de um jogo que na verdade não gostam, comportar-se em discordância com seus valores e opiniões para evitarem a exclusão social, entre outros exemplos.

Dessa forma, a timidez pode ser constatada a partir da observação e da comparação com os demais colegas. Por exemplo, os tímidos costumam se manter mais quietos em comparação aos outros colegas, não tiram dúvidas em sala de aula, não começam nem mantém diálogos com os demais, passeiam sem cumprimentar os transeuntes (geralmente, evitando-se com postura de olhar para baixo), em atividades grupais costumam ficar calados e acatarem as opiniões dos demais. Ficam mais solitárias e, quando não, interagem bem menos do que seria possível.
Muitas vezes, tais comportamentos são acompanhados de níveis significativos de ansiedade, medo, preocupações e pensamentos negativos diante de contextos interpessoais que impliquem avaliação dos demais (como ler em voz alta, resolver um problema no quadro, fazer uma apresentação na feira de ciências, por exemplo). Com a ansiedade, pode haver tremores, suor nas extremidades, gaguejos, rubor, náuseas ou calafrios. Assim, com estas sensações aversivas, muitas vezes a criança pode evitar o contato social e seus efeitos colaterais, assim como a exposição e as avaliações sociais. Ao passo disso, a timidez afeta também o autoconceito, a autoestima e o senso de eficácia.
Manifestando-se na infância, mas sem reversão do quadro, as dificuldades são passadas para as fases posteriores do desenvolvimento, muitas vezes mais graves. Já na fase adulta, as então crianças tímidas provavelmente terão dificuldades com autoestima, no mercado de trabalho e também no âmbito afetivo-sexual. Sem posicionarem-se adequadamente, aceitarão o que de fato não querem (como uma relação afetiva sem perspectivas), submeter-se-ão a situações aversivas por não conseguirem resolver problemas (como a um chefe coercitivo, por exemplo), assim como também poderão ter dificuldades em fazer amizades.
Como qualquer outro comportamento, o critério para que um padrão seja considerado um problema é haver prejuízo em algum âmbito da vida. Assim, se a timidez passa de um “charme” ou uma maneira reservada de interagir para algo que prejudica a socialização e/ou o desempenho acadêmico, recomenda-se procurar ajuda profissional. Dessa forma, evita-se o agravamento do quadro para Fobia Social e também para prejudica as outras fases do desenvolvimento.

A título de ilustração, algumas medidas recomendadas para abordagem de retraimento social são as práticas desportivas e as atividades artísticas. Por exemplo, o teatro desenvolve a expressão corporal, emocional e a fluência verbal através da exposição. No âmbito de tratamento, nas terapias comportamentais existem técnicas que aprimoram o repertório social, ao mesmo tempo em que são trabalhados os comportamentos privados (pensamentos) e as emoções, como a ansiedade. Alguns exemplos são o Treino de Habilidades Sociais e os exercícios de relaxamento. Assim, com a psicoterapia, a criança tímida pode aprender repertórios mais adaptativos de interação social e, assim, favorecer o seu desenvolvimento psicossocial e afetivo.



Postado por: Ana Cláudia Foelkel Simões